Os dentistas se valem de métodos cada vez mais eficientes e menos danosos aos dentes para reparar os estragos das cáries.
Preservar é preciso. Hoje esse é o principal lema dos odontólogos quando vão tratar dentes danificados por cáries. Para levá-lo a termo, os especialistas dispõem de um moderno arsenal de equipamentos, opções que em nada prejudicam a estruturar dentária, sem falar em novos produtos químicos. "Mesmo com os avanços tecnológicos, não existe nenhum material restaurador que consiga reproduzir com perfeição as propriedades químicas, mecânicas e biológicas do dente natural", adianta o dentista Jose Carlos Pereira, da universidade de São Paulo (USP), em Bauru, no interior paulista. Uma das novidades contra cáries é brasileiríssima: um gel à base de papaína, enzima extraída da casca do mamão verde.
Os géis chegaram aos consultórios odontológicos há poucos anos. Eles fazem parte de uma tendência de combate às cáries chamada de tratamento restaurador atraumáutico (ART, na sigla em inglês). Nessa linha, não se apela de cara ao motorzinho. "Procura-se preservar os dentes danificados até a necessidade de uma restauração maior", esclarece a dentista Eliza Maria Russo, da USP. Aí entram os géis. Eles possuem compostos que tornam a cárie mole, mole para, em seguida, ser removida com uma cureta. "Os géis são utilizados principalmente em crianças e pacientes com necessidade especias, pois facilitam a remoção do tecido cariado sem ou com o mínimo de anestesia", explica o dentista Walter Tom, de São Paulo.
Novidade Nacional
Desenvolvido pela dentista Sandra Kalil, das faculdades Metropolitanas Unidas e da Universidade Metropolitana de Santos, Estado de São Paulo, e pela farmacêutica Márcia Misiara, o primeiro gel genuinamente verde-e-amrelo é uma combinação de papaína com um anti-séptico potente, a cloramina a 0,5%. A enzima da casca do mamão é altamente proteolítica, ou seja, é capaz de fragilizar toda a estrutura da cárie. "Além disso, a papaína é cicatrizante e tem uma ótima ação antiinflamatória", diz Sandra Kalil.
Quando a cárie já deixou sua marca nefasta nos dentes, enchendo-os de buraquinhos, ás vezes de buracões, não dá para escapar de uma restauração. A tendência é recorrer-se cada vez menos ao velho amálgama, aquela liga metálica presente na boca de muita gente. Não porque ele não seja eficiente, e nem mesmo devida a suspeita de que o mercúrio da sua composição esteja por trás de diversos males (veja o quadro à direita). O principal motivo é estético - e o brasileiro é um povo pra lá de vaidoso. Nesse quesito, o amálgama perde feio para resina, um material plástico e adesivo cuja coloração se assemelha à tonalidade natural dos dentes.
Existem outros senões de ordem da Física. "O ato de mastigar exerce uma força na restauração que é transmitida para o resto do dente", explica o dentista Mário Fernando de Góes, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), no interior de São Paulo. Essa força tem diversas intensidades e pode levar a uma perda de resistência, porque o amálgama é mais rígido e não se une direito à estrutura dentária. "Assim, o dente é capaz até de se quebrar, principalmente se a restauração for grande", conclui Goes. Isso já não acontece com a resina, porque, ao aderir ao dente, ela acaba adquirindo suas propriedades mecânicas. Outra desvantagem da obturação escura: para fixa-la, o dentista cavuca uma espécie de alicerce.
Daí, parte do tecido sadio termina sendo eliminada.
Micróbios em ação
Entenda como as bactérias colonizam os dente, provocando o surgimento das cáries.

1. No princípio, a placa bacteriana (ou filme biológico) é uma mistura gelatinosa de restos dealimentos, bactérias e até células.

2. O ph bucal é ligeiramente alcalino. O consumo de alimentos doces aliado `a má higienefavorece a fixação de germes na placa. Quando eles ingerem restos de comida, ocorre a fermentação.

3. Daí, o ph fica ácido e os dentes reagem perdendo minerais. A saliva, que geralmente repõe os minerais perdido, passa a não dar conta do encargo. O esmalte é o primeiro atingido, ficando com manchas branca. É a cárie incipiente.

4. A desmineralizacao continua e chega à dentina, a camda mais interna do dente. Ela é composta de minerais e colágeno matéria-prima para a cárie. Pode-se sentir dor. Pois essa área tem pequenos canais por onde passam extensões nervosas da polpa, o miolo dentário.

5. Cárie na polpa é dor na certa: ela é cheia de nervos! Ali, a doença primeiro causa uma inflamação. Se não é tratada, a polpa até morre. Aí, a saída é o tratamento de canal.
Caixa de ferramentas
Conheça alguns instrumentos usados pelos dentistas Fotopoleminerizador - É um aparelho que emite uma luz azul halógena. Ele age sobre as resinas, endurecendo-as.
Cureta - O dentista a utiliza para raspar cáries mais profundas.
Espelho - É usado para enxergar áreas das quais não se tem visão direta, como a parte posterior dos dentes dianteiro
Explorador - É a pontinha desse instrumento que permite identificar as cáries.
Jato de bicarbonato de sódio - A substância, em pó, é jogada por meio de ar em alta pressão para remover a placa bacteriana.
Broca - Parece uma agulha e é encaixada no motorzinho. Desgasta o esmalte (se aponta é diamantada) ou a dentina (com uma ponta multilaminada) para livra-los de cáries.
Motorzinho de alta rotação - É responsável por aquele barulho infernal. A broca fica encaixada nele.
Na berlinda
No exterior, questiona-se se o amálgama pode ser tóxico
Países como Suécia o baniram. Na França, afeita a uma polêmica, até livreo sobre os perigos do amálgama para a saúde foram publicados. A suspeita vem do fato de além de prata, levar sua composição mercúrio, um metal pesado que, em altas doses, detonaria males como distúrbios neurológicos. Com o calor da boca, ele evapora. Daí, depois de inalado, se depositaria em outras partes do corpo, provocando encrenca. Muitos dentistas brasileiros não endossam as acusações. "Após sua cristalização, não há mercúrio disponível a ponto de causar efeitos tóxicos", garantet José Carlos Pereira.
Pós e contras
Conheça mais vantagens e desvantagens dos materiais usados pelos dentistas
Amálgama - Os dentistas são unânimes: esse continua sendo o material mais resistente. Uma restauração de amálgama bem realizada pode durar de dez a 15 anos. A liga metálica tem outro ponto positivo: seu custo é bem mais baixo do que o das resinas. Mas quando se fala em estética, não dá nem para comprar esse tipo com os materiais clarinhos.
Resina composta - é um dos últimos lançamentos em matéria de resina. Leva esse nome por combinar nanopartículas, isto é, partículas infamas de sílica - substância que faz a resina aparecer na radiografia - e de zircônia, capaz de conferir brilho. A grande vantagem, porém. É ser mais resistente à abrasão. Por isso, dura mais tempo. Sem contar que pode ser polida de tal maneira que acaba refletindo a luz de um jeito muito parecido com o do dente natural.
Desvantagens? É cara.
Resina com flúor - É indicada quando a cárie deixou uma cavidade mínima O flúor evita que o problema dê as caras novamente. A proteção só não é eterna: a liberação do mineral vai diminuindo com o passar do tempo.
Gel à base de papaína - Uma dês suas qualidades é que a papaína age somente na cárie, preservando os tecidos normais. O gel é aplicado por 30 segundos em cáries iniciais e por 40 segundos nas mais graves. Daí, inicia-se a raspagem e, depois, o especialista pode usar a restauração que desejar. Apesar de ser indicado para todos os tipos de cáries, remove com mais eficiência aquelas em estágio inicial. No geral, não apresenta desvantagens.
Perfura aqui, perfura acolá
Veja abaixo como é realizado um tratamento de canal
Na hora de realizar a operação tapa-buracos, os pacientes estão cada vez mais sendo poupados de tormentos, como o barulho irritante do motorzinho, que deixa muita gente petrifica de medo. Hoje, além do silencioso laser, há até um motor de ultra-som, usado com uma broca que possui ponta de diamante. Ele foi desenvolvido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Especiais em conjunto com a Universidade do Vale do Paraíba (Univap), no interior paulista.
O aparelho faz a broca vibrar para limpar as gengivas e remover o tártaro - a placa bacteriana que, de tão antiga, ficou durona. "Além de inaudível, ele não provoca cortes", elogia o dentista Luís Augusto Conrado, professor da Univap que participou das pesquisas sobre o dispositivo. Sem dúvida, uma garantia de mais conforto no dentista.
As bactérias começam a fixar residência nos dentes de duas a quatro horas após a escovação
Bloqueio para a dor
O que há de novo em anestesia dentária
Nessa seara, ainda não há um substituto para as agulhadas de anestésicos antes de procedimentos mais complicados. Mas os dentistas já dispõem de um dispositivo eletrônico, o Wand, que permite acionar e estabelecer previamente a velocidade e a dosagem da injeção. Outra boa notícia: surgem anestésicos tópicos eficientes para procedimentos na gengiva e as agulhas estão mais finas. Para os pacientes ansiosos, pode-se apelar para a sedação com óxido nitroso, um relaxante empregado em crianças.
As alergias a componentes dos anestésicos, que não deixam o impulso doloroso chegar ao cérebro, são raras. "Se houver um histórico alérgico, porém, devemos encaminhar o paciente para testes complementares", diz o dentista José Ranali, da Unicamp, em Piracicaba, no interior paulista.
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