Prevenção é palavra-chave da odontopediatria, especialidade que cuida dos dentes da criança antes mesmo de ela nascer.
Os futuros dentes de leite começam a se formar na sexta semana de gravidez, quando o dono do sorriso ainda é um embrião. E já a partir dessa fase os odontopediatras, especialistas que zelam pela saúde bucal da garotada, começam a orientar a mãe para garantir que o rebento tenha uma dentição perfeita.
A própria grávida pode se tornar mais vulnerável às cáries, por isso a consulta pré-natal acaba valendo para mãe e filho. "A gestante modifica seus hábitos alimentares e tende a beliscar a toda hora, principalmente doces", observa Maria Salete Nahas Pires Corrêa, professora de odontopediatria da universidade de São Paulo (USP). "Daí, a higiene bucal pode acabar negligenciada". A boca, então, se torna um paraíso para bactérias precursoras da cárie. O pior é que esse mal é, sim, transmissível para o bebê. Quando ele nasce, o aleitamento materno é a medida preventiva número 1. "O peito é o primeiro aparelho ortodôntico da criança", compara a odontopediatra Lúcia Coutinho Porto, da Associação Paulista de Cirurgiões-Dentistas (APCD). Sugá-lo favorece o desenvolvimento correto da arcada dentária inferior.
Explica-se: nos recém-nascidos, ela fica posicionada um pouco mais para trás, para facilitar a saída da criança no canal de parto, mas logo precisa ir para o lugar certo.
A amamentação também estimula a respiração nasal e postura adequada da língua, graças ao vácuo que naturalmente se forma entre o peito e a boca do bebê. Sem falar que o leite materno possui o que os cientistas chamam de baixo potencial cariogênico, ou seja, oferece um risco relativamente pequeno de provocar as temidas cáries.
Sorria, porque a previsão da OMS é otimista: no máximo 1% dos brasileirinhos com menos de 12 anos de idade terão dentes cariados, obturados ou perdidos em 2010
Escove as gengivas!
A limpeza deve ser feita muito antes de despontarem os primeiros dentinhos
Alguns especialistas recomendam esse ritual já a partir do segundo mês de vida. Outros aconselham que seja repetido diariamente após a última mamada desde a primeira semana. "A criança, assim, se habitua à higiene da boca", diz Geraldo Bosco, presidente da Sociedade Brasileira de Odontopediatria. Veja abaixo como ela deve ser feita. 1. O bebê pode estar no colo, no berço ou até mesmo no trocador. Enrole no dedo indicador uma gaze ou fralda de boca limpa, umedecida em água filtrada, fervida ou mineral, em temperatura ambiente.
2 . Massageie delicadamente as gengivas, em movimentos lentos vaivém. Acredite: os bebês costumam adorar.
O perigo do leite noturno
Mamadeira para acalmar o bebê à noite pode deixa-lo vulnerável a cáries.
"Os pais não limpam a boca da criança depois que ele adormece", nota a odontopediatra paulista Miriam Rodrigues do Prado. Isso não é nada bom. Na madrugada, cai a produção da saliva, que é um detergente natural. E, para as bactérias, o que sobrar de leite na boca servirá de banquete. A comilança desses restos deixa o pH bucal ácido. Aí, pronto: vem a cárie. No dente de leite, ela é fulminante, porque o esmalte é bem mais fino do que o de um dente permanente. Sem exagero: se não é tratada, são dois ou três meses e adeus, dentinho.
Entre o sexto e o oitavo mês, rompem os dois primeiros dos 20 dentes de leite - em geral, o par de incisivos inferiores. Inchaço da gengiva e a salivação excessiva, reações ao processo inflamatório sinalizam sua chegada. "Para algumas crianças, isso é indolor. Para outras, os dentes podem vir acompanhados de irritação, coceira, dor e febre", avisa Guedes Pinto, professor-titular de odontopediatria na USP. Mordedores de plástico ou de borracha, em formatos diversos, aliviam o problema.
A primeira visita a odontopediatra deve ser marcada entre o aparecimento da dupla de dentes e o aniversário de 1 ano. Para arrancar o medo de dentista, os especialistas examinam em tom de brincadeira - e os pais ajudam se, anos mais tarde, evitarem ameaças, como dizer que se ela, a criança não cuidar dos dentes terá de enfrentar o vilão motorzinho.
Mesmo quando a boca ainda exibe poucos dentes, é possível verificar se há problemas potenciais para a arcada dentária. O ideal é que as consultas se repitam a cada seis meses. Se houver cárie, os intervalos são mais curtos, mas é improvável que elas apareçam se tudo for seguido à risca. Depois de fazer várias perguntas sobre horários e hábitos alimentares, o odontopediatra indica, para cada caso, as melhores condutas de prevenção, como o tipo de escova ideal, o creme e o fio dental, além de como usar esses acessórios.
Sempre que necessário, ele também aplica flúor sobre cada dente com um pincel fininho. Até parece uma tinta, que deixa o sorriso amarelo por 12 horas, prazo que é preciso esperar para escovar os dentes depois do procedimento. Vale a pena: a substância fortalece o esmalte. Uma alternativa é a moldeira, que a criança morde por alguns segundos no consultório, preenchida com boas doses do mineral. Outro recurso é selar os dentinhos. Ou seja, tapar com uma resina pequenas depressões e fissuras na superfície dentária. É que as bactérias adoram fixar residência no aconchego desses buracos.
Entre as artimanhas nos consultórios dos odontopediatras, a anestesia se destaca. Provou-se que, quanto mais lenta a injeção da dose, e quanto mais próximo está o anestésico da temperatura corporal, menos incômodo o pequeno paciente sente. Há também dispositivos computadorizados para controlar a injeção.
Outro método é a inalação de óxido nitroso, que funciona como relaxante antes da anestesia. A evolução dos materiais utilizados em restaurações também beneficia a odontopediatria. As resinas mais modernas costumaram a ter maior durabilidade e estabilidade de cor, evitando remexer no dente obturado. Já o cimento de ionômero de vidro, um dos novos recursos tapa-buracos, libera o flúor gradualmente e seca rápido. "É uma vantagem e tanto, se consideramos que o tempo médio que a criança agüenta na cadeira do dentista é de 15 a 20 minutos", diz Lúcia Coutinho Porto. O senão do material está na durabilidade, que é pequena. Ideal, portanto, para os dentes de leite.
Flúor demais traz problemas
Entenda por que isso pode acontecer
Grande parte das cidades brasileiras possui água fluoretada. Isso dispensa o uso de produtos com flúor nos primeiros anos de vida, principalmente porque o excesso tem boa probabilidade de afetar os dentes permanentes quando ainda estão embutidos nas gengivas. O flúor de sobra produz manchas brancas ou castanhas nessa dentição. Não é apenas um problema estético: ali, na área manchada, o dente é mais frágil. Ou seja, o tiro da prevenção sai pela culatra, porque são pontos vulneráveis à cárie. O problema - sério, diga-se - é chamado de fluorose e, para preveni-lo, é fundamental que a criançada dessas cidades brasileiras prefiram cremes dentais sem flúor ou deixem para usar pastas com o mineral depois de aprenderem a cuspir toda a espuma. Mesmo assim, sem exageros: "a quantidade de creme sobre as cerdas não deve ser maior do que uma lentilha", ensina a odontopediatra Maria Inês Andrade, da Universidade Paulista (Unip).
Atenção aos bicos
Chupetas e mamadeiras podem causar danos
Ok, a chupeta auxilia o bebê a suprir sua necessidade de sucção, a se acalmar e ainda substituir o mau hábito de chupar o dedo. Mas o uso prolongado e incorreto traz prejuízos à arcada dentária. O mais comum é a mordida aberta - forma-se espaço entre os dentes inferiores e superiores que compromete a mastigação e a fala. Já a criança que toma mamadeira tem mais dificuldade de aprender o jeito certo de deglutir, de posicionar a língua e de respirar pelo nariz. A saída para evitar os dois casos? Bicos de mamadeira e de chupetas ortodônticos (como estes que você vê ao lado).
Chupeta?
Só para acalmar
"Deve-se recorrer a ela quando a criança está irritada e inquieta. Assim que se acalmar (ou dormir), é preciso removê-la imediatamente", diz a professora da USP Maria Salete Nahas Pires Corrêa. Um erro comum é apelar para prendedores, como aquelas fitinhas presas na roupa, que deixa a chupeta sempre acessível para o bebê. Resultado: ele se acostuma e, depois, quem vai lhe tirar o hábito? A chupeta inteirinha - não apenas o bico, voltado para cima - deve ter design ortodôntico, isto é, preste atenção e note se o suporte é côncavo. Isso garante que as arcadas ficarão paralelas para o maxilar se desenvolver do jeito certo.
O tipo certo
O bico ortodôndico da mamadeira, com a ponta para cima, deixa a língua no lugar certo. O furo por onde passa o leite, em direção ao céu da boca, estimula uma sucção mais vigorosa e faz com que a língua forme uma barreira em enquanto a criança engole o alimento.
O dente quebrou. E agora? Como agir nos caso de acidente
Tombo de bicicleta, boca no chão - um acidente bem comum na infância. Mesmo que não haja dentes quebrados, é bom procurar o odontopediatra para saber se houver danos invisíveis ao olhar leigo. Se há fratura ou perda de dente, aí então nem se fala. Mas, antes de correr para o consultório, faça a coisa certa.
" Se há sangramento, peça para a criança morder uma gaze ou pano limpo. Isso ajuda a controlar o fluxo.
" Procure o dente perdido. Achou? Para pegá-lo, toque seus dedos apenas na coroa, ou seja, no lado externo.
" Limpe-o com soro fisiológico ou leite morno sem esfregar. Mantenha-o imerso em um desses líquidos até chegar ao dentista - assim, há chances de ele ser reimplantado. O dente de leite fica vivo só 20 minutos fora da boca. O permanente, duas horas.
De boca em boca
Beijocas podem transmitir carinho e... cáries
Se os dentes da mãe, do pai ou dos irmãos estiverem cariados, o mais novinho da casa correrá perigo. Um rápido beijinho e as bactérias causadoras de encrenca saltam de uma boca para outra. Experimentar a comida do bebê co a mesma colher?
Outra oportunidade para esses germes! Soprar a papinha quente? Idem, nem pensar! Um estudo da Universidade católica do rio grande do Sul acusa esses hábitos de propagarem problemas dentários nas crianças da mais tenra idade, daí porque geralmente os índices de cáries de mãe e filho são similares. Muita gente desconfia disso, como demonstrou outro estudo, assinado pela odontopediatra Tânia de Lima Barbosa, na universidade Paulista: "Entrevistei 501 gestantes e mães, todas de classe média lata", conta. "Delas, 68,7% não conheciam os meios de propagação da doença", lamenta a especialista. Não basta cortar os hábitos que levam à contaminação: "Pais e também babás precisam estar com o checkup odontológico em dia", diz. Ora, quem não tem cárie não tem nada a transmitir.
Boca limpinha
O jeito certo de escovar os dentes da criança
Os especialistas recomendam que os pais supervisionem a escovação até os 7 anos. Ela deve ser feita após as refeições ou, no mínimo, três vezes ao dia. Veja abaixo como realiza-la e as escovas para cada idade.
Posicione a criança de costas para você, com a cabeça apoiada entre suas pernas.
Use o fio dental se já houver contato entre os dentes de leite.
Faça movimentos circulares com a escova sobre cada dentinho. Depois, faça um vaivém sobre cada área da arcada. Atenção: as cerdas apontam para a gengiva, formando um ângulo de 45 graus com os dentes.
No grand finale, deixe seu filho escovar sozinho. Ensine-o a cuspir a pasta e a bochechar bem.
1. Esta escova inicial tem uma superfície de borracha rugosa para massagear as gengivas. Ofereça-a ao bebê após a amamentação ou às refeições para ele brincar e se acostumar com o instrumento.
2. Dos 6 meses até 1 ano, o acessório deve ter a cabeça pequena (com duas ou três linhas de cerdas) e, de preferência, cabo comprido, para facilitar o trabalho da mãe.
3. A escova ideal a partir de 1 ano tem a cabeça pequena e arredondada e as cerdas mais curtas, dividas em tufos pouco densos.
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